sexta-feira, 31 de julho de 2020

Sexta-feira fria, com ventania à gosto


Agosto é exagerado, como tudo que se faz "à gosto":
... coloque pimenta  agosto; incêndio a boca,
... sal agosto; mar morto com certeza...

Penso que a receita deste mês ficou sem nome no meio das outras, e que, muito provavelmente, já ficou deixada de lado, para finalizar depois, pra pensar melhor, porque não havia dado muito bom resultado, enfim ...

Vejam só Janeiro, Novembro, Dezembro, Setembro..., que cheiro bom, que beleza de finalização. OUTUBRO,...Nooossa!  é de encher a boca para degustar este nome. Fevereiro, caramba! Que sonoridade,... escute só este som no início da palavra inventada para lhe dar nome, FEVE..., é a cara do próprio mês, pura alegria e leveza, como  a música e a dança de Antônio da Nóbraga.
 Já Junho, Julho, meses escuros e meio amargos, sombrios, quase gêmeos, tem cheiro de fogo e som do crepitar da madeira seca, mas têm sabor marcante , porém precisa tomar com muito cuidado porque pode causar queimaduras.

Mas é  óbvio que tem uns outros meses que ficaram meio perdido neste receituário, como é o caso de Março, mês com sabor meio opressivo; Maio, parece laranja do céu, é doce demais, na receita deste deve estar escrito:...adoçante a vontade. Abril, um tanto quanto insosso,... com certeza na receita está: ..uma pitada de sal... e os dedos de quem o fez eram muito pequeninos.
 


Mas Agosto, quando experimentamos sempre torcemos o nariz, enrugamos, a testa e esprememos a boca com língua entre os dentes... é tudo demais ou sem nada: dias agosto, vento agosto, folhas de sibipiruna a gosto,  nem uma pitada de dia santo... A gente engole este mês só porque não tem outro jeito mesmo.

Se agosto fosse gente, seria como eu estou agora nesta fase do confinamento: implicante e ranzinza.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

ANA LÚCIA

Resolvi recuperar esta postagem que fiz no feicibuke ano passado, mais propriamente no dia 29 de agosto de 2019. 

Estava em uma semana agitada e, ao finalizar uma das tarefas semanais, senti saudades imensa da estufa familiar, então fui para o lugar que melhor acolhe um ser vivente.

Agora não posso ir ate você, Analúcia, então vou rememorar a delícia deste dia.

 
 

Minhas férias na casa da Ana Lucia.

 
Hoje me senti cansada.
Após rodar uns 650 km na região, parando de escola em escola, conversando com as companheiras e companheiros de trabalho sobre as boas lutas, o período de nuvens pesadas que vamos atravessar, aulas no período matutino e noturno, reposições da greve, provas e trabalhos a aplicar,...affff. Ontem a noite, na hora de dormir, senti que estava apertando o meu cérebro, como diz o meu mano Cláudio... Rsrsrs.
Fiz tudo o que tinha que fazer até as 17:30 de hoje, sai do trabalho e senti uma vontade imensa de CASA. Fui na Ana Lúcia, ou A NÁLUCIA (tudo junto, como eu pensava que era quando criança... KKKK)
Cheguei com o Rocinante e, antes de desligar o motor, ouvi de dentro da casa: 
 
- A    N E E E E U U S A A A A A A!!!!!!!!!
 
Nossa!! Um NEUSA que eu ouvia da minha mãe quando eu chegava depois de tempo longe. Tal qual aquele que um dia ouvi quando cheguei a Carazinho e ela, andando pelo gramado em torno da casa, me reconheceu pela última vez.
Então, HOJE EU CHEGUEI EM CASA depois do trabalho, e descansei, e tomei um dos melhores cafés da minha vida, e conversei descansadamente com a minha ancestralidade que me quer muito bem, que sinceramente, realmente, de verdade, fica muito feliz quando me vê . Aquela pessoa cujo olhar dá uma festa na hora que a eu chego.
Estou voltando da temporada de férias que durou das 18 às 20 horas do dia de hoje.

domingo, 14 de junho de 2020

A neusa e a maria


A maria que acompanha a neusa é quase um adereço esquecido.
Vez ou outra lembro dela quando quero recriminar algum mal feito da neusa.

- Olha só o que a NEUSA MARIA fez:  derramou tinta vermelha sobre o banco traseiro do Sandero..

Geralmente os sobrenomes que se agregam à neusa ao longo da estrada também esquecem a maria: é a neusa da Almerinda,  neusa do DCE, neusa do PT, neusa do Conselho,  neusa de Mamborê,  neusa do Jadi da Retimam (este foi o sobrenome mais esquisito, ainda bem que não pegou...rsrsrs),  neusa do Teatro, neusa da APP..., e a maria sempre esquecida.

Porém ela está ali, testemunhando toda a andadura da neusa, os traços e as “meias coisas” realizadas que vão sendo deixadas à beira da estrada..., e os novos traços acrescentados à neusa primitiva.

 - Seriam elas ou é a estrada que passa...?!?!

O irmão mais velho




Chega um dia que os irmãos mais velhos partem da estufa familiar.
O corpo meio enrijecido, as calças compridas já acima do tornozelo, a sacola com as poucas coisas que pode levar, a aflição no peito, o olhar buscando firmeza, tentando cruzar rápido de um lado para o outro, com a intenção de não se deixar sugar para dentro da estufa novamente.

Conosco aconteceu diferente:
O irmão mais velho ficou e a estufa familiar partiu em um caminhão Mercedes azul, no dia de seu 19º aniversário.  - A figura esguia com os braços cruzados no peito, demonstrando imobilidade, um desajeitado meio sorriso nos lábios, um aceno tímido com a mão,... ficaram para traz naquele nublado 23 de janeiro de 1980.

domingo, 29 de abril de 2018

Coisas que entristecem

Os gerentes de governos, habilidosamente competentes,
com seus asseados, limpos, iluminados, cincos ésses,
continuam jogando fora gentes.
Do barro, Barros,
quem sabe então
eles saberão
qual o período médio
que um humano jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória.

O humano jogado fora.

Com seu pedaço de corpo roto, decepado, ralado
misturado no barro do brejútero,
um enxerto caótico de espécies:
pernas, pelos, penas, pênis, pústulas, piúrias, espúrias, pululam párias em profusão .

domingo, 7 de junho de 2015

ELAS E ELES TÃO NA LUTA



Neste dia 06 de junho, sábado, após uma reunião do conselho regional da APP Sindicato de Campo Mourão, fomos, eu e outros, vários, companheiros de luta, festejar e mirar uma outra luta.

São dez anos de uma batalha vencida;
Batalha de uma luta que nos inspira;
De uma luta que nos alimenta. 
- A luta e o trabalho lindo que realizam os nossos companheiros do MST de Peabiru. 

Conheci um lugar que aguça os sentidos;
com cheiro bom,
com gente linda,
com terra de uma aspereza incrivelmente macia,
com bicho livre,
com alimento saudável.
  

Bicho que vem da mata
e bicho que circunda a casa,
Bicho fazendo a função de bicho,
Bicho cumprindo a sua natureza:
ciscar, cacarejar, botar ovos onde bem lhes convier,...

 fuçar, tomar banho de lama,...
pastar uma grama fresquinha e cheirosa ...

As pessoas. 
Ah!!!!...  As pessoas deste lugar. 
As pessoas que pisam e cultivam aqueles chãos.

Gente com um jeito calmo da sabedoria,
Gente com um jeito de gente
Gente cuja  luta se  entranhou na vida;
Gente que sabe sempre, como ninguém, o momento certo de tudo e para tudo. 

A Martina... 
Disseram que eu tenho a feição dela.   
Ah!.... quem me dera estar na sola de seus chinelos.


Fotografia: Osvaldo Haagsma.

sábado, 9 de maio de 2015

27, 28 e 29 de Abril de 2015 – dias de muita violência na praça Nossa Senhora da Salete em Curitiba

Quando cheguei à praça 19 de dezembro, em Curitiba, no dia 27 de abril, com o objetivo de acompanhar de perto a tramitação do projeto da previdência enviado pelo governo à Assembleia Legislativa, eu viajara toda a noite em um ônibus fretado pelos professores da UNESPAR de Campo Mourão. Estava armada até os dentes:  barraca, lona, capa de chuva, galochas, cordas, lanternas, entre outro equipamentos de camping. Pisava firme no cimento da praça; certeza absoluta de estar completamente preparada para o porvir.
Com todo aquele arsenal dependurado no corpo, obviamente, chamei a atenção da imprensa que estava ali a caça de notícias e curiosidades. Dei uma entrevista onde apresentei todo o meu aparato para a resistência.
Armei, junto com os outros quatro colegas de Campo Mourão, a minha barraca no lugar mais estratégico, onde o sol da tarde pudesse ser amenizado pela sombra do painel de azulejos da praça, e segui na passeata até a ALEP para acompanhar a primeira reunião que trataria do projeto da previdência. A reunião foi rápida, mas registramos com muita força toda a nossa indignação com as ações govenamentais.
O caminhão de som que conduzia a marcha permaneceu estacionado na Av. Cândido de Abreu, em frente à Praça Nossa Senhora da Salete, para a concentração do dia seguinte.A policia militar e a tropa de choque cercava completamente a quadra da Assembleia Legislativa e as ruas próximas, armados até os dentes, porém diferente de nós: com armas de verdade e cães ferozes.
Eu e meus companheiros percebemos que as pessoas a pé não estavam sendo impedidas, neste momento, de circular pela praça e ruas próximas da Assembleia Legislativa. Então, descemos até a praça 19 de dezembro, desarmamos nosso acampamento e subimos até a praça Nossa Senhora da Salete com todo o equipamento nas costa, reinstalamos nossas barracas estrategicamente ente duas árvores, para evitar alguma surpresa climática.
A esta altura já escurecia. Completamente cansada, dormi assim que pude.
Por volta das 2 da madrugada do dia 28 fomos surpreendidos pelos os gritos dos colegas pedindo para que acordassemos porque a polícia estava roubando os nossos equipamentos de som. Corri junto com os demais companheiros, o mais rápido que pude para o local onde estavam estacionados os caminhões de som na tentativa de impedir que os retirassem. Começou a jorrar gás, spray e bombas  dificultando a nossa aproximação dos caminhões. Muitos companheiros começaram a passar mal e desmaiar. O esquadrão policial avançava com grades, nos empurrando em direção as barraca, dizendo que iam retirar dali todas os nossos equipamentos. A muralha de policiais parou de avançar a poucos metros de nossas barracas, na hora não entendi muito bem porque, depois ouvi comentários que este recuo se deu por que naquele momento havia chegado a imprensa e o Deputado Professor Lemos, não sei ao certo.
As coisas se acalmaram e o cerco policial permaneceu ali, mais avançado, não permitindo a nossa circulação naquela altura da av. Cândido de Abreu, restringindo apenas ao gramado da praça.
Nossos caminhões foram rebocados dali.
A noite estava muito fria, como até esta altura eu estava de pijama, resolvi então terminar a noite vestida com roupa que me permitisse sair da barraca mais agasalhada, caso houvesse uma nova investida.  Nada mais ocorreu no restante da noite.

Na manhã do dia 28 empreendemos uma tentativa de trazer nosso caminhão de som novamente para a avenida em frente a ALEP. Fomos barrados violentamente pela policia militar e a tropa de choque, que lançavam sobre nós bombas, gás e spray.  Após muita negociação do comando de greve com o comando da polícia militar, conseguimos a permissão para que o caminhão de som seguisse para a avenida em frente a praça, porem este avançou apenas poucos metros quando um policial invadiu a cabine do caminhão, desligou o motor e furtou a chave de ignição. O caminhão ali permaneceu sem condições de avançar para o seu destino.
Passamos a noite de 28 para 29 sob uma tensão imensa, com alarmes do nosso grupo designado para a vigilância soando amiúde, diante de  qualquer suspeita ou movimentação dos policiais.
Os cães ladravam na madrugada, talvez com o intuito de nos amedrontar, ou por qualquer outro motivo.
Dia 29 descemos, logo cedo, em direção a praça 19 de dezembro, para receber as delegações que viriam de ônibus do interior do estado. Seguimos juntos,  em marcha até a ALEP, para  novamente acompanhar a reunião final de discussão, aprovação ou reprovação do projeto da previdência.
Não conseguimos avançar além das cercas móveis e das barreiras de policiais que impediam a circulação na Avenida Cândido de Abreu. 
Um helicóptero voava  rasante e pairava sob nossas cabeças, fazendo com que tudo se agitasse em redemoinho a nossa volta, pelo vento forte de suas hélices. 
Ali aguardamos ansiosos até o inicio da reunião que definiria o assalto ou não ao fundo previdenciário que fora acumulado pelos servidores ao longo de 11 anos.
Quando os rumos da sessão da ALEP apontava para uma decisão contrária aos interesses dos servidores, os gritos e protestos se intensificaram e a barreira policial avançou sobre os manifestantes  empurrando as grades móveis no sentido de afastar a multidão que protestava. Isso causou um tumulto imenso, começaram a pipocar bombas, tiros e gás. Nesta confusão, minha mão ficou presa entre as grades que os policiais empurravam com violência sobre os manifestantes, ali permaneci por longos instantes até conseguir me desvencilhar, já com a ponta do dedo médio quase arrancada da mão,  presa por um pedaço de pele apenas.
As bombas explodiam de todos os lados, de cima dos prédios e do helicóptero que alguns momentos antes havia nos atacado com a ventania de suas hélices. Corri em desatino, chutei bombas a esmo, estava completamente apavorada, imaginava  que havia perdido parte da mão, o sangue jorrava copiosamente quando uma colega me entregou um lenço para proteger o ferimento. Vi a ambulância estacionada em meio a toda aquela fumaça e explosões. A custo, temendo as bombas e os tiros cheguei até o veículo que já atendia outras pessoas feridas. A ambulância não conseguiu sair porque havia um ônibus da polícia militar estacionado no cruzamento das avenidas.  A atendente orientou  que eu corresse até a prefeitura  em busca de auxilio. Lá chegando, a guarda municipal me encaminhou para o hospital Cajuru onde tive o atendimento necessário.
Já no hospital as noticias chegavam dizendo que o massacre continuava, as pessoas feridas não paravam de chegar. Por fim, alguém trouxe a notícia que o projeto fora aprovado. 
Tristeza, desanimo, desalento, impotência, humilhação, fraqueza;  acho que este misto de sensações era um pouco do que eu sentia no início daquela noite.
Pernoitei na casa do trabalhador em educação. Todo meu corpo doía imensamente, uma dor mais forte do que a mão ferida;  um frio cortante subia pelas minhas pernas e não havia cobertor que pudesse aquecê-las, demorei muito para pegar no sono porque a imagem da minha mão sendo esmagada vinha sempre que fechava os olhos. Não conseguia nem chorar, estava paralisada.