domingo, 7 de junho de 2015

ELAS E ELES TÃO NA LUTA



Neste dia 06 de junho, sábado, após uma reunião do conselho regional da APP Sindicato de Campo Mourão, fomos, eu e outros, vários, companheiros de luta, festejar e mirar uma outra luta.

São dez anos de uma batalha vencida;
Batalha de uma luta que nos inspira;
De uma luta que nos alimenta. 
- A luta e o trabalho lindo que realizam os nossos companheiros do MST de Peabiru. 

Conheci um lugar que aguça os sentidos;
com cheiro bom,
com gente linda,
com terra de uma aspereza incrivelmente macia,
com bicho livre,
com alimento saudável.
  

Bicho que vem da mata
e bicho que circunda a casa,
Bicho fazendo a função de bicho,
Bicho cumprindo a sua natureza:
ciscar, cacarejar, botar ovos onde bem lhes convier,...

 fuçar, tomar banho de lama,...
pastar uma grama fresquinha e cheirosa ...

As pessoas. 
Ah!!!!...  As pessoas deste lugar. 
As pessoas que pisam e cultivam aqueles chãos.

Gente com um jeito calmo da sabedoria,
Gente com um jeito de gente
Gente cuja  luta se  entranhou na vida;
Gente que sabe sempre, como ninguém, o momento certo de tudo e para tudo. 

A Martina... 
Disseram que eu tenho a feição dela.   
Ah!.... quem me dera estar na sola de seus chinelos.


Fotografia: Osvaldo Haagsma.

sábado, 9 de maio de 2015

27, 28 e 29 de Abril de 2015 – dias de muita violência na praça Nossa Senhora da Salete em Curitiba

Quando cheguei à praça 19 de dezembro, em Curitiba, no dia 27 de abril, com o objetivo de acompanhar de perto a tramitação do projeto da previdência enviado pelo governo à Assembleia Legislativa, eu viajara toda a noite em um ônibus fretado pelos professores da UNESPAR de Campo Mourão. Estava armada até os dentes:  barraca, lona, capa de chuva, galochas, cordas, lanternas, entre outro equipamentos de camping. Pisava firme no cimento da praça; certeza absoluta de estar completamente preparada para o porvir.
Com todo aquele arsenal dependurado no corpo, obviamente, chamei a atenção da imprensa que estava ali a caça de notícias e curiosidades. Dei uma entrevista onde apresentei todo o meu aparato para a resistência.
Armei, junto com os outros quatro colegas de Campo Mourão, a minha barraca no lugar mais estratégico, onde o sol da tarde pudesse ser amenizado pela sombra do painel de azulejos da praça, e segui na passeata até a ALEP para acompanhar a primeira reunião que trataria do projeto da previdência. A reunião foi rápida, mas registramos com muita força toda a nossa indignação com as ações govenamentais.
O caminhão de som que conduzia a marcha permaneceu estacionado na Av. Cândido de Abreu, em frente à Praça Nossa Senhora da Salete, para a concentração do dia seguinte.A policia militar e a tropa de choque cercava completamente a quadra da Assembleia Legislativa e as ruas próximas, armados até os dentes, porém diferente de nós: com armas de verdade e cães ferozes.
Eu e meus companheiros percebemos que as pessoas a pé não estavam sendo impedidas, neste momento, de circular pela praça e ruas próximas da Assembleia Legislativa. Então, descemos até a praça 19 de dezembro, desarmamos nosso acampamento e subimos até a praça Nossa Senhora da Salete com todo o equipamento nas costa, reinstalamos nossas barracas estrategicamente ente duas árvores, para evitar alguma surpresa climática.
A esta altura já escurecia. Completamente cansada, dormi assim que pude.
Por volta das 2 da madrugada do dia 28 fomos surpreendidos pelos os gritos dos colegas pedindo para que acordassemos porque a polícia estava roubando os nossos equipamentos de som. Corri junto com os demais companheiros, o mais rápido que pude para o local onde estavam estacionados os caminhões de som na tentativa de impedir que os retirassem. Começou a jorrar gás, spray e bombas  dificultando a nossa aproximação dos caminhões. Muitos companheiros começaram a passar mal e desmaiar. O esquadrão policial avançava com grades, nos empurrando em direção as barraca, dizendo que iam retirar dali todas os nossos equipamentos. A muralha de policiais parou de avançar a poucos metros de nossas barracas, na hora não entendi muito bem porque, depois ouvi comentários que este recuo se deu por que naquele momento havia chegado a imprensa e o Deputado Professor Lemos, não sei ao certo.
As coisas se acalmaram e o cerco policial permaneceu ali, mais avançado, não permitindo a nossa circulação naquela altura da av. Cândido de Abreu, restringindo apenas ao gramado da praça.
Nossos caminhões foram rebocados dali.
A noite estava muito fria, como até esta altura eu estava de pijama, resolvi então terminar a noite vestida com roupa que me permitisse sair da barraca mais agasalhada, caso houvesse uma nova investida.  Nada mais ocorreu no restante da noite.

Na manhã do dia 28 empreendemos uma tentativa de trazer nosso caminhão de som novamente para a avenida em frente a ALEP. Fomos barrados violentamente pela policia militar e a tropa de choque, que lançavam sobre nós bombas, gás e spray.  Após muita negociação do comando de greve com o comando da polícia militar, conseguimos a permissão para que o caminhão de som seguisse para a avenida em frente a praça, porem este avançou apenas poucos metros quando um policial invadiu a cabine do caminhão, desligou o motor e furtou a chave de ignição. O caminhão ali permaneceu sem condições de avançar para o seu destino.
Passamos a noite de 28 para 29 sob uma tensão imensa, com alarmes do nosso grupo designado para a vigilância soando amiúde, diante de  qualquer suspeita ou movimentação dos policiais.
Os cães ladravam na madrugada, talvez com o intuito de nos amedrontar, ou por qualquer outro motivo.
Dia 29 descemos, logo cedo, em direção a praça 19 de dezembro, para receber as delegações que viriam de ônibus do interior do estado. Seguimos juntos,  em marcha até a ALEP, para  novamente acompanhar a reunião final de discussão, aprovação ou reprovação do projeto da previdência.
Não conseguimos avançar além das cercas móveis e das barreiras de policiais que impediam a circulação na Avenida Cândido de Abreu. 
Um helicóptero voava  rasante e pairava sob nossas cabeças, fazendo com que tudo se agitasse em redemoinho a nossa volta, pelo vento forte de suas hélices. 
Ali aguardamos ansiosos até o inicio da reunião que definiria o assalto ou não ao fundo previdenciário que fora acumulado pelos servidores ao longo de 11 anos.
Quando os rumos da sessão da ALEP apontava para uma decisão contrária aos interesses dos servidores, os gritos e protestos se intensificaram e a barreira policial avançou sobre os manifestantes  empurrando as grades móveis no sentido de afastar a multidão que protestava. Isso causou um tumulto imenso, começaram a pipocar bombas, tiros e gás. Nesta confusão, minha mão ficou presa entre as grades que os policiais empurravam com violência sobre os manifestantes, ali permaneci por longos instantes até conseguir me desvencilhar, já com a ponta do dedo médio quase arrancada da mão,  presa por um pedaço de pele apenas.
As bombas explodiam de todos os lados, de cima dos prédios e do helicóptero que alguns momentos antes havia nos atacado com a ventania de suas hélices. Corri em desatino, chutei bombas a esmo, estava completamente apavorada, imaginava  que havia perdido parte da mão, o sangue jorrava copiosamente quando uma colega me entregou um lenço para proteger o ferimento. Vi a ambulância estacionada em meio a toda aquela fumaça e explosões. A custo, temendo as bombas e os tiros cheguei até o veículo que já atendia outras pessoas feridas. A ambulância não conseguiu sair porque havia um ônibus da polícia militar estacionado no cruzamento das avenidas.  A atendente orientou  que eu corresse até a prefeitura  em busca de auxilio. Lá chegando, a guarda municipal me encaminhou para o hospital Cajuru onde tive o atendimento necessário.
Já no hospital as noticias chegavam dizendo que o massacre continuava, as pessoas feridas não paravam de chegar. Por fim, alguém trouxe a notícia que o projeto fora aprovado. 
Tristeza, desanimo, desalento, impotência, humilhação, fraqueza;  acho que este misto de sensações era um pouco do que eu sentia no início daquela noite.
Pernoitei na casa do trabalhador em educação. Todo meu corpo doía imensamente, uma dor mais forte do que a mão ferida;  um frio cortante subia pelas minhas pernas e não havia cobertor que pudesse aquecê-las, demorei muito para pegar no sono porque a imagem da minha mão sendo esmagada vinha sempre que fechava os olhos. Não conseguia nem chorar, estava paralisada.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

ABANDONO

O abandono é suportar esperas
infinitamente distantes.
Aguça a audição,
intercepta o ruído seco do sapato roto,
roçando o caminho poeirento.
Espichando o olhar,
deseja adivinhar
que a distância se estreita,
e vai apontar na curva que se esconde atrás do arbusto robusto.

Foto: Mundo Mudo - Cia Azul Celeste

domingo, 29 de março de 2015

SER HUMANO COM VAGINA É GENTE



Quando eu era uma menina eu queria ser menino; olhava o arco-íris e me deitava a investigar onde seria mais fácil cruzar as sete fitas coloridas, que escondiam o princípio e o fim naquela linha levemente ondulada do horizonte.
Eu brotei do ventre de uma geografia suave ao olhar, mas sensivelmente  áspera pelas invernias que sapecavam a minha pele. Porém o pealo mais forte veio do privilegio que tinham naquelas paragens os humanos que nasciam com um pênis,  e sendo eu de uma espécie com vagina, desde muito cedo encarei  a frieza de determinadas restrições, como o fato de não poder brincar com outros meninos, além dos meus dois irmãos. Sendo eu uma das raras viventes-menina-criança naquele universo, este veto dificultava em muito a minha vida-brincante;  as peleias eram tensas.
Passei embaixo do arco-íris e me tornei menino nas ações, obtendo o reconhecimento daquele mundo hostil em muitos quesitos, isto me ajudou imensamente, e ainda ajuda.
Penso que daí brotou também a minha rebeldia, e aquela milonga reflexiva e lenta, daquela linha monótona,  que deu início ás minhas falas e ações, tomou outro ritmo quando me tornei um ser urbano  e me deparei com estas mesmas dificuldades, passividades e rebeldias em ritmo mais acelerado.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A REVOLUÇÃO DE GÊNERO PRECISA URGENTEMENTE IR PARA AS RUAS.



Temos que questionar o tempo todo o modelo idealizado de homem e de mulher que está ai posto,  circulando como autômatos nas ruas, ocupando todos os espaços públicos e privados.
Nosso modelo de representação sobre quem são e o que fazem homens e mulheres são sustentados em  uma lógica de contos de fada, que a massa silenciosa tenta reproduzir no dia-a-dia. Isto promove a invisibilidade de muitos seres humanos, visto que classifica a todos em um padrão binário, dicotômico, que desconsidera todas as curvas e nuances que existem entre seres humanos homens e mulheres.
Este apartheid de gênero que está entranhado em nossos corações e mentes precisa ser desconstruído, e esta ação é para ontem. 
Mas felizmente, ao que parece,  há uma revolução em curso cujo veículo é a internet.  Das margens, das sombras, estão aquelas e aqueles que subvertem o controle institucionalizado sobre os corpos, que maquinam contra a tirania do Sexo-Rei. Estão ai imcomodando, aquelas e aqueles que pulam as cercas que segregam homens e mulheres nesse regime totalitário para a livre vivência de identidades e sociabilidades.
Oxalá esta revolução se espalhe pelas ruas das cidades e pelas estradas rurais.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Hailey Kass: A genitalização das pessoas e dos relacionamento

Super gosto do que esta menina escreve, mas quero republicar em especial este post retirado de: http://generoaderiva.wordpress.com/2013/05/05/a-genitalizacao-das-pessoas-e-dos-relacionamentos/ , porque acho que é bem por ai mesmo.

Publicado em
[Aviso de conteúdo: Esse texto usa certos termos para identificar genitais de pessoas trans*; faço uma ressalva que nem todas as pessoas trans* se sentem confortáveis com tais nomenclaturas, havendo aquelas que se sentem empoderadas e aquelas que sentem disforia. Esse texto parte da visão de uma mulher trans* queer que se sente empoderada em identificar o próprio genital com certos termos].
Muitas pessoas me perguntam no ASK se elas têm preconceito porque não se relacionariam com mulheres ou homens trans*, sempre fazendo alusão ao genital. Muitas acham que defender a não-genitalização dos relacionamentos é fazer condicionamento de sexualidades. Nada poderia estar mais longe do que isso. O único condicionamento que consigo perceber nisso é a ideia de que o genital é uma categoria fundante das relações interpessoais. Que se um genital não condiz com as minhas expectativas de gênero da pessoa com a qual eu quero me relacionar, isso é um motivo legítimo para eu ignorar todos os meus sentimentos afetivos (e sexuais) pela pessoa e não me relacionar com ela. Vou dar alguns exemplos:
1. Expectativas físicas gerais ocorrem em vários casos com pessoas que não são trans* e isso é considerado preconceito (ou deveria…)
Imagine que você na internet, conhece aquela pessoa maravilhosa e conversa horas, dias, semanas com ela, super se interessa, seus gostos tem tudo a ver, afinidade ideológica etc. De repente, quando você a encontra pessoalmente você verifica que:
a) ela é gorda; b) com alguma deficiência; c) negra
Então você escolhe não se relacionar com ela. Isso seria gordofobia? Capacitismo? Racismo? Se o motivo pelo qual você escolhe não se relacionar com uma pessoa é um atributo físico (nesse caso não esperado), prezada pessoa, você tem preconceitos que precisam ser trabalhados.
2. Expectativas físicas específicas com genitais ocorrem em vários casos com pessoas que não são trans* e isso é considerado preconceito (ou deveria…)
Agora, imagine a seguinte situação: Você mulher heterossexual, conhece aquele homem cis super legal que te atrai (feminista :P), tem boa conversa, afinidades etc. Conversam por dias, semanas. Posteriormente você fica ciente do seguinte:
a) ele tem um micropênis e/ou; b) ele é impotente ou; c) tem o genital mutilado/perdido por algum fator (existem vários casos do tipo).
Você deixaria de se relacionar com uma pessoa assim? Voltaria atrás nos seus sentimentos, em toda construção romântica que você criou durante o tempo que vocês estavam juntxs, por causa do genital desse homem? Da mesma forma, um homem hétero deixaria de relacionar com uma mulher cis que tivesse perdido os seios, por exemplo?
3. Mas e o prazer?
Eu sempre digo que sexo é infinitamente muito mais do que só penetração. O que as pessoas chamam de “preliminares” eu considero sexo; até porque, vamos combinar, quem é que nunca achou uma gozada por sexo oral ou masturbação muito melhor do que sexo penetrativo? Eu particularmente acho :D
Há muito mais além do arco-íris gente, existem inúmeras formas de dar e receber prazer que não precisam envolver penetração. Acontece que estamos tão centradxs no sexo dos filmes pornôs que queremos mimetizar aquilo como se fosse a melhor coisa do mundo (dica: não é. Por exemplo, puxar cabelos e usar seios como se fossem botões de máquinas de lavar – isso não é um padrão amigxs, tem gente que gosta; tem gente que odeia). Ainda, se o sexo penetrativo for tão importante, tem zilhões de dildos, pênis de borrachas, próteses, e afins que servem pra isso. O que acontece é que colocamos uma importância tão grande nos genitais “originais” que esquecemos que o “objetivo”, digamos, do sexo é dar prazer, te fazer sentir bem (e ser consensual não vamos esquecer).
4. Homossexualidade não requer simetria genital.
E nem heterossexualidade requer assimetria genital. Se eu sou uma mulher trans* que não fiz cirurgia genital e possuo um pênis, e me envolvo com uma mulher cis, é obvio que nossos genitais não serão simétricos, mas isso não deixa de ser uma relacionamento lésbico. O mesmo acontece com um homem hétero cis que se relacione com uma mulher trans* com pênis. Genitais simétricos, mas heterossexualidade. Ainda, poderia haver simetria genital com homossexualidade no caso de duas mulheres trans* lésbicas ou dois homens trans* gays.
Quando retiramos dos genitais essa importância que damos fundante das nossas relações, e retiramos essa “verdade” última das identidades (sou gay então gosto de pênis; sou lésbica então gosto de vulvas etc.) e desconstruímos essas ideias limitadas que relacionam genital-gênero-sexualidade-relações, percebemos que existe um número infinito de configurações aí fora. Só precisamos abrir a mente nos deixarmos levar sem preconceitos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Teatro nos bairros de Mamborê

Terá início neste 10 de agosto , sábado, um novo projeto do Grupo Trapos em conjunto com o departamento de cultura do município de Mamborê.  Este projeto levará o espetáculo  O Caixeiro da Taverna aos bairros da sede do município, a exemplo do que já aconteceu em anos anteriores nos bairros da zona rural, e a programação terá início sempre as 14:00 horas, contando com oficinas de iniciação teatral  dirigida a pessoas acima de 14 anos, ministrada pelos integrantes do Grupo Trapos, e oficinas de leitura com contação de histórias, sem limitação de faixa etária, oferecida pelo Comboio Cultural (biblioteca itinerante) do município. A peça O Caixeiro da Taverna, de Martins Pena, direção Carlos Soares, será levada ao palco, improvisado nas ruas ou em espaços comunitários de cada bairro, sempre às 20:00, conforme o calendário de eventos do município.