segunda-feira, 11 de maio de 2026

ABRAÇANDO A MÃE EM MIM


 SOU MÃE DA MAISA E DA ALINE, 

...CADA UMA DELAS ME ABRAÇA COM OS SENTIDOS:

UMA me abraça com o olfato, com aquele cheiro de andiroba que chega feito redemoinho e envolve meu corpo inteiro; 

OUTRA me abraça com o som que sai serpenteando da ponta dos dedos e se espirala roçando a minha pele até chegar aos meus ouvidos; 

UMA me abraça com a voz, quando chego de tardezinha e ela diz aquele “MÃE” transbordando de novidades cotidianas; 

OUTRA me abraça com o paladar em festa quando chega de longe neste lugar MÃE;

Mas o que é mais fascinante:

AS DUAS ME ABRAÇAM COM OS OLHARES ENCANTADOS COM O MUNDO.

sábado, 7 de março de 2026

Levo minha mãe, e muitas mulheres , comigo


Por que as mães morrem? Elas não deviam morrer!... mas talvez elas precisem morrer pra gente continuar.

Tem uma música, que na voz da Elza Soares é um grito de doer, e vou transcrevê-la aqui, como uma oração:

Levo minha mãe comigo
Embora já se tenha ido
Levo minha mãe comigo
Talvez por sermos tão parecidos

Levo minha mãe comigo
De um modo que não sei dizer
Levo minha mãe comigo
Pois deu-me seu próprio ser

Mas se eu me levantar
Ninguém irá saber
E o que me fez morrer

Eu acho isso de uma força, de uma ancestralidade extraordinária. Somos uma rede, cada uma de nós levando um pouco daquelas que vieram antes de nós, seja mãe ou seja qualquer mulher.  Nós pertencemos umas as outras; isto nos dá alivio, isto nos faz chorar.

Esta semana uma mulher morreu, mas não desapareceu. Esta mulher foi, com certeza, uma resistência, um acúmulo de coisa que quase não se definem com palavras. Digo isso porque conheço muito bem o corpo Tânia que saiu de dentro dela. É um corpo de uma beleza e de uma força infinita.

Um velório, um enterro, talvez não sejam os lugares mais confortáveis do mundo pra ninguém. Mas de maneira estranha, me senti muito bem estando ali, olhando aquela mulher que deixou de estar, mas não de ser. Eu rezei, cantei cânticos religiosos, achei lindo serem mulheres fazendo orações, acreditei profundamente nas crenças de todas elas, pertenci a elas, reestabeleci ligações com elas. 

Depois olhei os passos daquela  mulher que acabara de deixar de estar; vi ela na escola em que lecionou, vi ela na casa em que morou, vi ela nas flores espalhadas no jardim que plantou, e estas flores já alcançando o  fora do limite,  o mais além,  em frente à casa;  esta casa  com aparência abandonada, mas repleta de vida e história. Ali naquela casa tinha, e tem ainda, muita comida; comi uma banana,  almejei buscar aqueles abacates lindos nos galhos altos; as mangas estavam ali, deixando aquela terra mais fértil, alimentando qualquer ser, voador ou rastejante que por ali passasse, passe ou venha a passar.

Parece que voltei pra casa: a casa de muitas mulheres e que é minha casa também.